Natal, RN
17 de Março de 2010
No dia 30 de janeiro de 1989 eu estava em Catolé do Rocha, na Paraiba, e me preparava para fazer um show quando recebi a notícia da morte de Carlos Alexandre que viajava para Natal, vindo da cidade de Pesqueira, no interior de Pernambuco, onde tinha ido fazer um show na noite anterior. Perto da cidade de São José de Campestre, seu carro capotou, caiu num precipício e provocou a morte do cantor, do seu guitarrista e do seu contrabaixista.
O cantor potiguar, que representava o supra sumo daquilo que a intelectualidade considera a breguice musical - rótulo do qual a indústria fonográfica da época se aproveitou para ganhar muito dinheiro - foi um fenômeno único no mundo do disco, pois conseguiu um feito até então - e creio que até hoje - nunca conquistado por nenhum artista: ganhou discos de ouro do primeiro compacto simples, ao último LP que gravou. Humilde, era padeiro, foi descoberto pelo então deputado Carlos Alberto e também realizou uma proeza rara; saiu diretamente da Cidade da Esperança para as paradas de sucesso de todo o Brasil. Semi-analfabeto, era de uma sensibilidade impressionante: fazia músicas como quem bebia água, sempre explorando temas óbvios desprezados pela maioria dos outros artistas, mas que faziam parte do dia-a-dia das pessoas mais simples. Seus discos, ao serem lançados no mercado, já saíam com pelo menos cinquenta mil exemplares vendidos antecipadamente, um verdadeiro fenômeno para a época. E isto sem nenhum esquema promocional, com um custo mínimo para a gravadora, o que resultava em um lucro tão grande que, não raro permitia à RGE cobrir os prejuízos que tinha com alguns dos "medalhões" do seu cast.
Só com o dinheiro que faturava nos shows que fazia em Pernambuco, cantando em circos, clubes, ginásios e gafieiras, Carlos Alexandre, se fôsse vivo, estaria vivendo em uma situação financeira super confortável. Mas, além disso, ganhava dinheiro com direitos autorais das vendas dos seus discos e da execução das suas músicas nas rádios de todo o Brasil; recebia como compositor e intérprete, o que o colocava no ranking dos cantores mais bem remunerados do Brasil. Pego de surpresa pelo sucesso e sem uma assessoria competente, Carlos Alexandre era uma espécie de marajá do estilo brega: tinha fans em todo o Brasil, se apresentou nos mais importantes programas de TV da época - inclusive no Globo de Ouro - e era assediado por chacretes, cantoras famosas, mulheres do meio artístico e fora dele, por onde passava. Não sabia o que fazer com todo o dinheiro que ganhava: foi fazendeiro em João Câmara, dono de posto de gasolina - O Postinho - na Praia do Meio, proprietário de churrascaria - A Taboquinha - em Macaiba, dono de banda musical - Os Tigres - cujo ônibus êle mesmo gostava de dirigir e, no auge do sucesso, chegou a trocar de carro dezesseis vezes em um só ano, segundo me confidenciou Gilvan, seu secretário por muito tempo.
Por trás da aparente ostentação, se escondia um menino ingênuo que era capaz de fazer coisas por muitos consideradas inimagináveis: muitas vezes deixava seu cachê para donos de circos pobres, dava dinheiro aos seus divulgadores, e certa vez, quando um radialista de Pernambuco disse que seu sonho era ser um dono de uma Caravan - camionete que era a sensação na época - tão bonita quanto a sua, ele simplesmente se virou para o radialista e disse: "o carro é seu". E então, entregou as chaves da sua Caravan ao radialista atônito. Fez isto por gratidão, pois havia sido este radialista que havia feito a música Feiticeira "estourar" em Pernambuco, e a partir daí, se espalhar pelo Brasil todo. Repito: aquele gesto que para muitos pode parecer o ato de um louco, representou um gesto puro de gratidão e reconhecimento por quem o ajudara a se tornar um cantor famoso.
Gratidão e reconhecimento foi o que ele não recebeu sequer da gravadora a quem dera tanto lucro, durante uma década inteira: no dia da sua morte a RGE não lhe enviou sequer uma coroa de flores; gratidão e reconhecimento também foi o que ele não recebeu até hoje na sua terra, pois, embora continue sendo amado e jamais tenha sido esquecido pelo povo, nunca sequer foi lembrado ou homenageado pelo poder público ou pelos " fazedores" de cultura do nosso estado.
Quando partiu, Carlos Alexandre tinha apenas 32 anos.
Pra ele, minha saudade e meu respeito.
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