Natal, RN
02 de Setembro de 2010
Depois de um longo e tenebroso inverno sem atualizações, a coluna está desnorteada, suspensa no espaço-tempo. Será a ressaca de vodca ruim, ou estamos em 1º de abril?
Só o Dia da Mentira justificaria a série de faltas com a verdade que mancheteiam jornais que vejo aqui e alhures.
Primeira deturpação dos fatos (ou lorota, como queira): “Dilma cai nas pesquisas e preocupa Lula”. Entendo a fome da queda, mas gente, menos 0,6% não é bem uma queda. Tropeçou no bigode do Sarney, vá lá. E atribuir este recuo a Lina Vieira é até deselegante com a ex-ministra da Receita, já que o povo brasileiro nem sabe que Vieira é essa.
Outro desvio na essência do assunto: “Oposição ganha com recuo de Lula, que tira a discussão do Pré-sal da lista de prioridades”. Não, a verdade é que o governo saiu ganhando. Porque se a urgência tivesse sido mantida, a partir de 17 de outubro a pauta estaria travada exclusivamente para o assunto. E a câmara viraria uma sucursal do inferno, logo a câmara, onde Lula tem maioria. Não era interesse de ninguém o caos ali, de modo que a ameaça da urgência foi uma estratégia para assustar deputados, que culminou no que o governo queria: um calendário definido para votar o pré-sal. E agora, os nobres deputados podem continuar no trabalho edificante que fazem bem, como criar 7 mil vagas de vereador ou aumentar o salário dos ministros do STF. Que sorte a nossa, hein?
Para terminar a lista de notícias faltosas com a realidade: “Natal pode estar fora da Copa”. Não, meu povo. Não pode não. Não pode ser verdade uma notícia
Fui acompanhar o maior São João do Estado em Mossoró. Vi a cidade inteira preparada para o evento, o museu sobre o ataque de Lampião e a praça de convivência com restaurantes e bares arrumadinhos, com boa comida. Entretanto, o que mais me chamou a atenção sobre Mossoró, vi quando voltei a Natal: a cobertura dos humoristas do Pânico.
Cristian Pior e o Presidente Molusco vieram, com tudo pago pela Sim TV, para fazer o que eles fazem em ocasiões assim: debochar do evento com as piadas grotescas que nós conhecemos e com as quais, muitas vezes, rimos de chorar.
Cristian e Molusco avacalharam o povo mossoroense, ridicularizaram as mulheres, menosprezaram a cidade e a distância em que ela se encontra do eixo Rio-São Paulo. Chamaram uma foliã de demônia. Esculhambaram a barriga de uma outra. Humilharam um repórter local. E depois de tudo isso vem a pergunta: e daí?
Foi exatamente isso que a dupla de mau gosto fez com o Festival de Cannes, por exemplo. O tipo de humor que caracterizou o Pânico, um programa metade revolucionário e metade lixo, é este, sem tirar nem por. As críticas da imprensa sobre a linha editorial da cobertura são uma bobajada pior do que piadas sobre flatulência. Porque a boa anedota às vezes é baixa, às vezes é de alto nível. Mas sempre atinge o mesmo objetivo: faz rir.
Muito já se falou de como nós temos o rei na barriga. Só faltava ser aristocrata com humor.
Proponho um exercício de pessimismo, achismo e intolerância preconceituosa contra a classe política. Este exercício, que já estou fazendo, tem como base duas informações:
1) As obras da Arena das Dunas vão começar a ser licitadas já já, agora, o mais rápido possível
2) A Assembleia aprovou e o Governo vai pedir um empréstimo de 300 milhões ao BNDES para investimentos na “área social”.
O motivo número 1 nos leva ao lugar mais comum dos blogues: as licitações. Licitações são um problema porque parece que o Ministério Público tem sempre acesso demorado a elas. Vide a licitação para a escolha das agências de propaganda da Prefeitura de Natal, tão problemática que até eu, uma pessoa menos bem-informada que qualquer promotor, já senti o cheiro acre. Prevejo que a licitação para construção do maior estádio do universo siga o mesmo padrão (achismo etc)
O motivo número 2 nos leva ao lugar mais comum, não dos blogues, mas do mundo: a graninha da dentadura. Aqui, na casa grande e na senzala, sempre me arrepio com verba para a “área social” às portas de uma eleição (sim, estamos às portas de uma eleição). Esse montante que a governadora descolou ainda vai completar uma arcada dentária por aí (achismo de novo etc).
Proponho agora um exercício de otimismo: tudo o que ofereço é achismo sem fundamento. Feche a coluna e siga respirando.
Micarla e Carlos Eduardo fazem muitas traquinagens, mas ninguém vê. Como num jogo de Gato Mia.
O último lance foi do ex-prefeito de Natal, Carlos Eduardo, que diz que a Comissão Especial de Inquérito que a câmara montou para investigar o desperdício de medicamentos da prefeitura é uma “patifaria”. Só que óbvio: ninguém que interessa viu. A massa que vai eleger o governador ano que vem não lê jornal. De que adianta a briga?
Bem, como eu não sou a massa e não elejo ninguém, eu vi a briga. E me diverti dando algumas risadas sozinho, o que preocupa os vizinhos. "Fizeram uma montagem colocando remédios no chão. Na nossa gestão os remédios não ficavam no chão", frisou Carlos Eduardo. Quer dizer: na gestão dele, tudo bem: era remédio fora de validade, na temperatura errada, o escambau: mas no chão, ah, no chão não.
Outra cena tragicamente engraçada é quando os depoentes começaram a culpar o ex-chefe do almoxarifado. Sim: a culpa é do cara do almoxarifado. Nem ele sabia que era tão importante. A mulher deve estar orgulhosa. Grandes profissões, grandes responsabilidades. Você, que está me lendo agora, cuidado: nunca seja chefe do almoxarifado. Vire bandido, traficante, bicheiro. É menos perigoso.
Alguém tem que avisar a Micarla que ela não precisa se preocupar com Carlos Eduardo. Ele faz o serviço sozinho. E é melhor ela arranjar alguma coisa pra colocar nas copas das árvores quando a administração completar 200 dias.
Outra do Gato Mia: Carlos Eduardo disse que a Comissão Especial de Inquérito “não merece respeito”.
Micarla respondeu: miau.
A Petrobrás tem funcionado como braço estratégico do Governo Lula. Na exploração de Petróleo? Resposta errada, soa a campainha, abre um alçapão, você está eliminado. Na exploração de jornais e revistas.
A empresa é o principal anunciante Brasil afora e exerce, por conta de sua verba astronômica, “pressão” idem no editorial destes veículos. É simples assim: entra a grana e a linha editorial muda. Vai desde Carta Capital ao Jornal Vale Paraibano.
O assunto está na pauta da CPI da Petrobrás que a oposição conseguiu criar como tentativa desesperada de frear o crescimento de Dilma Roussef na corrida presidencial (alguém avisa que com o Serra, o homem-que-nunca-ri, não será possível).
Enquanto isso, na Cidade do Sol, a deputada federal Fátima Bezerra realiza sua festa de aniversário no Clube da Petrobrás. Uma espécie de resumo do que o governo Lula pode virar: o Clube da Petrobrás.
E agora, alguém vai regular a verba da Petrobrás para evitar este tipo de abuso?
Resposta errada, soa a campainha.
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