Natal, RN
17 de Março de 2010
Hoje pela manhã eu estive com o Secretário Kalazans Bezerra, da SEMURB. Fui entregar a ele um projeto chamado Sementes do Amanhã. Este projeto, prevê o plantio de 20 árvores a cada edição do Show das Comunidades realizado a partir deste ano, tendo como meta um total de 1.000 árvores a serem plantadas em um prazo de cinco anos - de 2010 a 2014 - , o equivalente a 5.000 toneladas de carbono a serem neutralizadas neste período. Este espaço não é suficiente para que possamos falar detalhadamente deste projeto, mas posso abordá-lo aqui de forma resumida, me fixando no principal objetivo do mesmo: não fazer os plantios apenas por fazer, tentando tirar um proveito midiático de um assunto que apesar de tão importante, ás vezes é usado meramente como marketing promocional.
Ao mesmo tempo em que pesquisas indicam que existe cada vez mais um interesse maior da população e das empresas com relação à preservação do meio ambiente, grandes parcelas da população - principelmente aquelas situadas em áreas mais carentes, onde o fluxo de informações é pequeno, por não existir um trabalho de conscientização - ainda não estão suficientemente esclarecidass sôbre este assunto e, por isto não lhe dão a devida atenção.
Esperamos que a idéia tenha êxito, mas de antemão é preciso reconhecer que sem o apoio de um órgão como a SEMURB, este seria um sonho que jamais se tornaria realidade. Por isto é importante frisar que, para que projetos como este possam ser executados, é necessário contar com o apoio do poder público e com a sensibilidade de gestores preparados e realmente comprometidos com a missão que lhes foi confiada.
Esperamos poder lançar o programa ainda este mês e realizar o primeiro plantio em março. Desta forma, o Show das Comunidades será o primeiro projeto do Rio Grande do Norte neutro em carbono. Torcemos para que outras pessoas, outros produtores culturais e outros artistas também se motivem para realizar ações deste tipo, pois quem não entender que nos dias de hoje cultura e arte estão diretamente ligadas à preservação do meio ambiente, pode perder uma boa chance de fazer algo em favor da comunidade em que vive.
No dia 27 passado, conseguimos, enfim, gravar o nosso DVD, depois de 16 meses lutando na captação de recursos para sua viabilização. Escolhemos de propósito um dos bairros de Natal onde existe uma das maiores efervescências culturais da nossa cidade mas que, infelizmente só é visto pelo seu lado negativo: Felipe Camarão.
Há cerca de seis anos que o bairro de Felipe Camarão é incluido nas edições anuais do projeto Talento Potiguar/Show das Comunidades. Durante todos estes anos não houve uma única vez em que tivéssemos qualquer tipo de problema no nosso evento. Sem falar que aquele bairro é uma das comunidades onde mais registramos aumento não só de público, como também de atrações, ano a ano. Para algumas pessoas, realizar naquele bairro, um show de dimensões grandiosas, contando com a participação de vários artistas e com previsão de um público superior a três mil pessoas, foi um ato de coragem. Todavia, para mim foi simplesmente bom senso não só por retribuir à comunidade o carinho com que sempre recebeu nosso projeto, mas também como uma maneira de tentar diminuir o preconceito que existe com relação a um bairro que, como outro qualquer tem seus problemas, mas cujo lado bom é praticamente ignorado pela grande maioria das pessoas.
Não me envergonho de ser um artista popular; muitíssimo pelo contrário, tenho muito orgulho disso. E, ao gravar um DVD com o objetivo de comemorar meus quarenta anos de vida artística e registrar minha discografia, eu não poderia - perdoem a franqueza - ter feito uma escolha mais acertada com relação à escolha do local.
Como Felipe Camarão, muitos outros bairros periféricos e esquecidos também seriam merecedores desta escolha; são bairros que, desde a criação do projeto Talento Potiguar/Show das Comunidades têm prestigiado maciçamente o nosso projeto e têm tido a oportunidade de mostrar para todo o estado os talentos e a riqueza cultural da periferia de uma cidade que, de tanto valorizar o que vem de fora, se esquece que é exatamente na periferia e nos bolsões de pobreza onde a criatividade artistica e o sentimento da valorização cultural explodem com muito mais intensidade.
As pessoas prestigiaram a gravação do meu DVD e cantaram junto comigo, com José Orlando, com Lane Cardoso, com Joãozinho do Grafith, com Messias Paraguai e com Carlos Alexandre Júnior. Como eu, artistas populares que, na simplicidade das suas músicas e na seriedade com que executam seu trabalho, sofrem preconceitos e enfrentam dificuldades para cumprirem, muitas vezes sem o apoio do poder público, sua missão de levar alegria às pessoas mais simples.
Obrigado aos artistas, ao público, aos parceiros. Mas, sobretudo, obrigado, Felipe Camarão
No dia 30 de janeiro de 1989 eu estava em Catolé do Rocha, na Paraiba, e me preparava para fazer um show quando recebi a notícia da morte de Carlos Alexandre que viajava para Natal, vindo da cidade de Pesqueira, no interior de Pernambuco, onde tinha ido fazer um show na noite anterior. Perto da cidade de São José de Campestre, seu carro capotou, caiu num precipício e provocou a morte do cantor, do seu guitarrista e do seu contrabaixista.
O cantor potiguar, que representava o supra sumo daquilo que a intelectualidade considera a breguice musical - rótulo do qual a indústria fonográfica da época se aproveitou para ganhar muito dinheiro - foi um fenômeno único no mundo do disco, pois conseguiu um feito até então - e creio que até hoje - nunca conquistado por nenhum artista: ganhou discos de ouro do primeiro compacto simples, ao último LP que gravou. Humilde, era padeiro, foi descoberto pelo então deputado Carlos Alberto e também realizou uma proeza rara; saiu diretamente da Cidade da Esperança para as paradas de sucesso de todo o Brasil. Semi-analfabeto, era de uma sensibilidade impressionante: fazia músicas como quem bebia água, sempre explorando temas óbvios desprezados pela maioria dos outros artistas, mas que faziam parte do dia-a-dia das pessoas mais simples. Seus discos, ao serem lançados no mercado, já saíam com pelo menos cinquenta mil exemplares vendidos antecipadamente, um verdadeiro fenômeno para a época. E isto sem nenhum esquema promocional, com um custo mínimo para a gravadora, o que resultava em um lucro tão grande que, não raro permitia à RGE cobrir os prejuízos que tinha com alguns dos "medalhões" do seu cast.
Só com o dinheiro que faturava nos shows que fazia em Pernambuco, cantando em circos, clubes, ginásios e gafieiras, Carlos Alexandre, se fôsse vivo, estaria vivendo em uma situação financeira super confortável. Mas, além disso, ganhava dinheiro com direitos autorais das vendas dos seus discos e da execução das suas músicas nas rádios de todo o Brasil; recebia como compositor e intérprete, o que o colocava no ranking dos cantores mais bem remunerados do Brasil. Pego de surpresa pelo sucesso e sem uma assessoria competente, Carlos Alexandre era uma espécie de marajá do estilo brega: tinha fans em todo o Brasil, se apresentou nos mais importantes programas de TV da época - inclusive no Globo de Ouro - e era assediado por chacretes, cantoras famosas, mulheres do meio artístico e fora dele, por onde passava. Não sabia o que fazer com todo o dinheiro que ganhava: foi fazendeiro em João Câmara, dono de posto de gasolina - O Postinho - na Praia do Meio, proprietário de churrascaria - A Taboquinha - em Macaiba, dono de banda musical - Os Tigres - cujo ônibus êle mesmo gostava de dirigir e, no auge do sucesso, chegou a trocar de carro dezesseis vezes em um só ano, segundo me confidenciou Gilvan, seu secretário por muito tempo.
Por trás da aparente ostentação, se escondia um menino ingênuo que era capaz de fazer coisas por muitos consideradas inimagináveis: muitas vezes deixava seu cachê para donos de circos pobres, dava dinheiro aos seus divulgadores, e certa vez, quando um radialista de Pernambuco disse que seu sonho era ser um dono de uma Caravan - camionete que era a sensação na época - tão bonita quanto a sua, ele simplesmente se virou para o radialista e disse: "o carro é seu". E então, entregou as chaves da sua Caravan ao radialista atônito. Fez isto por gratidão, pois havia sido este radialista que havia feito a música Feiticeira "estourar" em Pernambuco, e a partir daí, se espalhar pelo Brasil todo. Repito: aquele gesto que para muitos pode parecer o ato de um louco, representou um gesto puro de gratidão e reconhecimento por quem o ajudara a se tornar um cantor famoso.
Gratidão e reconhecimento foi o que ele não recebeu sequer da gravadora a quem dera tanto lucro, durante uma década inteira: no dia da sua morte a RGE não lhe enviou sequer uma coroa de flores; gratidão e reconhecimento também foi o que ele não recebeu até hoje na sua terra, pois, embora continue sendo amado e jamais tenha sido esquecido pelo povo, nunca sequer foi lembrado ou homenageado pelo poder público ou pelos " fazedores" de cultura do nosso estado.
Quando partiu, Carlos Alexandre tinha apenas 32 anos.
Pra ele, minha saudade e meu respeito.
Em circunstâncias normais, não se pode discutir ou questionar altos cachês pagos a artistas de renome, por dois motivos básicos: primeiro, existe uma lei de mercado que determina o valor de cada artista de acordo com sua popularidade; segundo: como cada artista é um produto único e cobra o cachê que quiser, muitas vezes esta lei de mercado abre exceções à regra vigente. É este fato que faz com que os cachês pagos aos artistas pelo poder público não tenham a obrigatoriedade de serem licitados.
Conhecendo de cor e salteado os bastidores do mundo artístico, não costumo fazer críticas aleatórias a nenhum órgão público com relação a contratação de shows artísticos, pois a engrenagem do show business é muito complexa, envolvendo empresas, promotores de eventos, empresários honestos e inescrupulosos, jogo de interesse, e intermediários que muitas vezes quebram todas as regras da ética e da decência em nome do lucro, além de uma série de outros fatores que não caberiam aqui, e que muitas vezes fazem os gestores públicos perderem o controle sobre determinadas situações. Entretanto, quando se trata de eventos bancados com nosso dinheiro – como é o caso do Verão de Todos, o que me enoja e com certeza envergonha e humilha nossa classe artística é ver uma absoluta falta de interesse pela valorização dos nossos talentos, em detrimento de alguns artistas de fora – alguns deles “mortos” no mercado, sumidos e sem sucesso - que vem aqui ganhar na nossa mídia um espaço que muitas vezes não desfrutam nos seus estados e receber do nosso poder poder público altíssimos cachês que não recebem nos seus lugares de origem, cachês estes, pagos antecipadamente, ao contrário dos nossos cantores, das nossas bandas e nossos músicos que, quando prestam serviços para órgãos públicos, além de ganharem míseros cachês, têm que se submeter a uma burocracia que os submete a uma via crucis que dura dias, semanas e até meses para receberem seus pagamentos.
Tudo isto faz com que nossos artistas fiquem em uma posição humilhante, o que, com certeza, afeta a auto-estima dos nossos talentos, contribuindo para que nós, cada vez mais nos tornemos colônia cultural de outros estados.
A série de shows com os forasteiros baianos (que vêm aqui pegar nosso dinheiro para gastar e investir em seu estado) denominada Verão de Todos, bem que poderia ser chamado VERÃO DO ESCÂNDALO MUSICAL. E ainda caberia aí um sub-título: PARA OS ARTISTAS DE FORA, MÍDIA PRIVILEGIADA, HONRARIA E ALTOS CACHÊS; PARA OS DAQUI, ANONIMATO, HUMILHAÇÃO E FALTA DE RESPEITO.
Ao convidar a banda Calcinha Preta para participar do seu especial, Roberto apenas cumpriu um ritual que se repete a cada ano: colocar no ar um artista cujo trabalho - independente de narizes entortados pelos críticos e por pseudo intelectuais – conseguiu uma façanha: transmitir, através de uma música simples, com refrão mais simples ainda, uma mensagem, cujo conteúdo faz parte do cotidiano de milhares de brasileiros e que, por isto mesmo está presente no inconsciente coletivo de grande parte da população: “Você não vale nada, mais eu gosto de você”. A música de Calcinha Preta conseguiu dizer, de forma mais excrachada e direta, o que já fora dito antes numa linguagem mais rebuscada por autores como Lupicinio Rodrigues, Antonio Maria e Adelino Moreira, entre outros. Por dizer o que milhares de brasileiros já disseram, dizem ou gostariam de ter dito e também pelo fato de ter sido destaque em uma novela da Globo, a música conseguiu entrar no especial do Rei, dentro dentro de um esquema que previa audiência, repercussão e, sobretudo, dividendos financeiros. Com um detalhe: é de autoria de um potiguar que, para se firmar no cenário artístico, teve que se mudar para Fortaleza. Pra variar. Infelizmente.
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