Natal, RN
09 de Fevereiro de 2010
No dia 27 passado, conseguimos, enfim, gravar o nosso DVD, depois de 16 meses lutando na captação de recursos para sua viabilização. Escolhemos de propósito um dos bairros de Natal onde existe uma das maiores efervescências culturais da nossa cidade mas que, infelizmente só é visto pelo seu lado negativo: Felipe Camarão.
Há cerca de seis anos que o bairro de Felipe Camarão é incluido nas edições anuais do projeto Talento Potiguar/Show das Comunidades. Durante todos estes anos não houve uma única vez em que tivéssemos qualquer tipo de problema no nosso evento. Sem falar que aquele bairro é uma das comunidades onde mais registramos aumento não só de público, como também de atrações, ano a ano. Para algumas pessoas, realizar naquele bairro, um show de dimensões grandiosas, contando com a participação de vários artistas e com previsão de um público superior a três mil pessoas, foi um ato de coragem. Todavia, para mim foi simplesmente bom senso não só por retribuir à comunidade o carinho com que sempre recebeu nosso projeto, mas também como uma maneira de tentar diminuir o preconceito que existe com relação a um bairro que, como outro qualquer tem seus problemas, mas cujo lado bom é praticamente ignorado pela grande maioria das pessoas.
Não me envergonho de ser um artista popular; muitíssimo pelo contrário, tenho muito orgulho disso. E, ao gravar um DVD com o objetivo de comemorar meus quarenta anos de vida artística e registrar minha discografia, eu não poderia - perdoem a franqueza - ter feito uma escolha mais acertada com relação à escolha do local.
Como Felipe Camarão, muitos outros bairros periféricos e esquecidos também seriam merecedores desta escolha; são bairros que, desde a criação do projeto Talento Potiguar/Show das Comunidades têm prestigiado maciçamente o nosso projeto e têm tido a oportunidade de mostrar para todo o estado os talentos e a riqueza cultural da periferia de uma cidade que, de tanto valorizar o que vem de fora, se esquece que é exatamente na periferia e nos bolsões de pobreza onde a criatividade artistica e o sentimento da valorização cultural explodem com muito mais intensidade.
As pessoas prestigiaram a gravação do meu DVD e cantaram junto comigo, com José Orlando, com Lane Cardoso, com Joãozinho do Grafith, com Messias Paraguai e com Carlos Alexandre Júnior. Como eu, artistas populares que, na simplicidade das suas músicas e na seriedade com que executam seu trabalho, sofrem preconceitos e enfrentam dificuldades para cumprirem, muitas vezes sem o apoio do poder público, sua missão de levar alegria às pessoas mais simples.
Obrigado aos artistas, ao público, aos parceiros. Mas, sobretudo, obrigado, Felipe Camarão
No dia 30 de janeiro de 1989 eu estava em Catolé do Rocha, na Paraiba, e me preparava para fazer um show quando recebi a notícia da morte de Carlos Alexandre que viajava para Natal, vindo da cidade de Pesqueira, no interior de Pernambuco, onde tinha ido fazer um show na noite anterior. Perto da cidade de São José de Campestre, seu carro capotou, caiu num precipício e provocou a morte do cantor, do seu guitarrista e do seu contrabaixista.
O cantor potiguar, que representava o supra sumo daquilo que a intelectualidade considera a breguice musical - rótulo do qual a indústria fonográfica da época se aproveitou para ganhar muito dinheiro - foi um fenômeno único no mundo do disco, pois conseguiu um feito até então - e creio que até hoje - nunca conquistado por nenhum artista: ganhou discos de ouro do primeiro compacto simples, ao último LP que gravou. Humilde, era padeiro, foi descoberto pelo então deputado Carlos Alberto e também realizou uma proeza rara; saiu diretamente da Cidade da Esperança para as paradas de sucesso de todo o Brasil. Semi-analfabeto, era de uma sensibilidade impressionante: fazia músicas como quem bebia água, sempre explorando temas óbvios desprezados pela maioria dos outros artistas, mas que faziam parte do dia-a-dia das pessoas mais simples. Seus discos, ao serem lançados no mercado, já saíam com pelo menos cinquenta mil exemplares vendidos antecipadamente, um verdadeiro fenômeno para a época. E isto sem nenhum esquema promocional, com um custo mínimo para a gravadora, o que resultava em um lucro tão grande que, não raro permitia à RGE cobrir os prejuízos que tinha com alguns dos "medalhões" do seu cast.
Só com o dinheiro que faturava nos shows que fazia em Pernambuco, cantando em circos, clubes, ginásios e gafieiras, Carlos Alexandre, se fôsse vivo, estaria vivendo em uma situação financeira super confortável. Mas, além disso, ganhava dinheiro com direitos autorais das vendas dos seus discos e da execução das suas músicas nas rádios de todo o Brasil; recebia como compositor e intérprete, o que o colocava no ranking dos cantores mais bem remunerados do Brasil. Pego de surpresa pelo sucesso e sem uma assessoria competente, Carlos Alexandre era uma espécie de marajá do estilo brega: tinha fans em todo o Brasil, se apresentou nos mais importantes programas de TV da época - inclusive no Globo de Ouro - e era assediado por chacretes, cantoras famosas, mulheres do meio artístico e fora dele, por onde passava. Não sabia o que fazer com todo o dinheiro que ganhava: foi fazendeiro em João Câmara, dono de posto de gasolina - O Postinho - na Praia do Meio, proprietário de churrascaria - A Taboquinha - em Macaiba, dono de banda musical - Os Tigres - cujo ônibus êle mesmo gostava de dirigir e, no auge do sucesso, chegou a trocar de carro dezesseis vezes em um só ano, segundo me confidenciou Gilvan, seu secretário por muito tempo.
Por trás da aparente ostentação, se escondia um menino ingênuo que era capaz de fazer coisas por muitos consideradas inimagináveis: muitas vezes deixava seu cachê para donos de circos pobres, dava dinheiro aos seus divulgadores, e certa vez, quando um radialista de Pernambuco disse que seu sonho era ser um dono de uma Caravan - camionete que era a sensação na época - tão bonita quanto a sua, ele simplesmente se virou para o radialista e disse: "o carro é seu". E então, entregou as chaves da sua Caravan ao radialista atônito. Fez isto por gratidão, pois havia sido este radialista que havia feito a música Feiticeira "estourar" em Pernambuco, e a partir daí, se espalhar pelo Brasil todo. Repito: aquele gesto que para muitos pode parecer o ato de um louco, representou um gesto puro de gratidão e reconhecimento por quem o ajudara a se tornar um cantor famoso.
Gratidão e reconhecimento foi o que ele não recebeu sequer da gravadora a quem dera tanto lucro, durante uma década inteira: no dia da sua morte a RGE não lhe enviou sequer uma coroa de flores; gratidão e reconhecimento também foi o que ele não recebeu até hoje na sua terra, pois, embora continue sendo amado e jamais tenha sido esquecido pelo povo, nunca sequer foi lembrado ou homenageado pelo poder público ou pelos " fazedores" de cultura do nosso estado.
Quando partiu, Carlos Alexandre tinha apenas 32 anos.
Pra ele, minha saudade e meu respeito.
Em circunstâncias normais, não se pode discutir ou questionar altos cachês pagos a artistas de renome, por dois motivos básicos: primeiro, existe uma lei de mercado que determina o valor de cada artista de acordo com sua popularidade; segundo: como cada artista é um produto único e cobra o cachê que quiser, muitas vezes esta lei de mercado abre exceções à regra vigente. É este fato que faz com que os cachês pagos aos artistas pelo poder público não tenham a obrigatoriedade de serem licitados.
Conhecendo de cor e salteado os bastidores do mundo artístico, não costumo fazer críticas aleatórias a nenhum órgão público com relação a contratação de shows artísticos, pois a engrenagem do show business é muito complexa, envolvendo empresas, promotores de eventos, empresários honestos e inescrupulosos, jogo de interesse, e intermediários que muitas vezes quebram todas as regras da ética e da decência em nome do lucro, além de uma série de outros fatores que não caberiam aqui, e que muitas vezes fazem os gestores públicos perderem o controle sobre determinadas situações. Entretanto, quando se trata de eventos bancados com nosso dinheiro – como é o caso do Verão de Todos, o que me enoja e com certeza envergonha e humilha nossa classe artística é ver uma absoluta falta de interesse pela valorização dos nossos talentos, em detrimento de alguns artistas de fora – alguns deles “mortos” no mercado, sumidos e sem sucesso - que vem aqui ganhar na nossa mídia um espaço que muitas vezes não desfrutam nos seus estados e receber do nosso poder poder público altíssimos cachês que não recebem nos seus lugares de origem, cachês estes, pagos antecipadamente, ao contrário dos nossos cantores, das nossas bandas e nossos músicos que, quando prestam serviços para órgãos públicos, além de ganharem míseros cachês, têm que se submeter a uma burocracia que os submete a uma via crucis que dura dias, semanas e até meses para receberem seus pagamentos.
Tudo isto faz com que nossos artistas fiquem em uma posição humilhante, o que, com certeza, afeta a auto-estima dos nossos talentos, contribuindo para que nós, cada vez mais nos tornemos colônia cultural de outros estados.
A série de shows com os forasteiros baianos (que vêm aqui pegar nosso dinheiro para gastar e investir em seu estado) denominada Verão de Todos, bem que poderia ser chamado VERÃO DO ESCÂNDALO MUSICAL. E ainda caberia aí um sub-título: PARA OS ARTISTAS DE FORA, MÍDIA PRIVILEGIADA, HONRARIA E ALTOS CACHÊS; PARA OS DAQUI, ANONIMATO, HUMILHAÇÃO E FALTA DE RESPEITO.
Ao convidar a banda Calcinha Preta para participar do seu especial, Roberto apenas cumpriu um ritual que se repete a cada ano: colocar no ar um artista cujo trabalho - independente de narizes entortados pelos críticos e por pseudo intelectuais – conseguiu uma façanha: transmitir, através de uma música simples, com refrão mais simples ainda, uma mensagem, cujo conteúdo faz parte do cotidiano de milhares de brasileiros e que, por isto mesmo está presente no inconsciente coletivo de grande parte da população: “Você não vale nada, mais eu gosto de você”. A música de Calcinha Preta conseguiu dizer, de forma mais excrachada e direta, o que já fora dito antes numa linguagem mais rebuscada por autores como Lupicinio Rodrigues, Antonio Maria e Adelino Moreira, entre outros. Por dizer o que milhares de brasileiros já disseram, dizem ou gostariam de ter dito e também pelo fato de ter sido destaque em uma novela da Globo, a música conseguiu entrar no especial do Rei, dentro dentro de um esquema que previa audiência, repercussão e, sobretudo, dividendos financeiros. Com um detalhe: é de autoria de um potiguar que, para se firmar no cenário artístico, teve que se mudar para Fortaleza. Pra variar. Infelizmente.
Ademilde Fonseca, Trio Irakitan, Núbia Lafayette, Carlos Alexandre, Leno... O que estes artistas têm em comum? Duas coisas: primeiro, são norte-rio-grandenses; segundo; não recebem do nosso estado a atenção que deveriam receber. Conheci todos pessoalmente e com alguns deles convivi de perto.
Ademilde Fonseca, a Rainha do Chorinho, um dos nomes mais cultuados da MPB, é praticamente desconhecida das novas gerações do nosso estado. Tive a oportunidade de fazer vários shows ao lado dela durante a inauguração de várias obras que marcaram o fim do governo Cortês Pereira. Da caravana, faziam parte Luiz Gonzaga, Paulo Tito e o Trio Irakitan. Isto foi em 1974 e, que eu me lembre, nunca mais Ademilde se apresentou em Natal, jejum que foi quebrado recentemente, quando ela fez um show na Assembléia Cultural.
Conheci o Trio Irakitan na mesma época em que travei conhecimento com Ademilde Fonseca. Considerado, ao lado do Trio Los Panchos, do México, como um os melhores trios vocais do mundo., o Trio Irakitan gravou centenas de discos, cantou com Nat King Cole e viajou por mais de sessenta países.Tornei-me amigo de João Costa Neto, de Tony e de Gilvan, e durante o tempo em que morei no Rio de Janeiro mantive contato frequente com os três. O Trio Irakitan, se fosse natural de outro estado, já teria um museu em sua homenagem.
Com Núbia Lafayette, uma das maiores intérpretes românticas do Brasil, tive um contato rápido em 1985, durante um show que realizamos na cidade de Assu. Considerada cafona por muitos pseudo-intelectuais, quebrou um tabu, quando se apresentou no Teatro Alberto Maranhão lotado, há alguns anos, no projeto seis e meia. No fim da vida, foi homenageada por Elimar Santos, que a convidou para participar do seu DVD.
Carlos Alexandre, ex-padeiro quase analfabeto, foi o único cantor do Brasil que ganhou discos de ouro do primeiro ao último disco que gravou - na época em que não existia a pirataria - feito que nem Roberto Carlos conquistou. Fomos amigos, nos encontramos várias vezes em shows pelo Brasil afora e em programas de TV de Recife, Fortaleza, Rio e São Paulo . Eu mesmo fui testemunha do quanto ele era assediado, chegando ao ponto de precisar de proteção policial para não ser pisoteado por fãs enlouquecidas. A cada dia 30 de janeiro, aniversário da sua morte, muitas emissôras de rádio em vários estados do nordeste fazem justas homenagem a ele. Aqui, na sua terra natal, nessa data, o silêncio é sepucral.
Leno, foi o único representante do nosso estado na Jovem Guarda. Um dos poucos artistas nordestinos que fez parte de um dos movimentos musicais brasileiros mais importante do século XX. Foi parceiro de Raul Seixas, agora está morando em Natal, mas não recebe de sua cidade o tratamento que merece. Conheci-o há dois anos.Tem um DVD aprovado pela Lei Djalma Maranhão, mas simplesmente não consegue captar recursos para viabilizar a gravação.
Em Pernambuco, Alceu Valença é idolatrado, Reginaldo Rossi é chamado de "Rei" até pelos governantes e Cajú e Castanha, com quem já divivi o palco em circos na cidade de Recife, se tornaram ícones da cultura popular; no Ceará, Falcão, o cantor que sintetiza a cultura brega é garoto-propaganda do governo (e ganhando bem); também no Ceará, Cláudia Barroso, aos 83 anos, está em plena atividade, no Piauí, Franco Aguiar é idolatrado; no Pará Pinduca, o Rei do Carimbó não pára de fazer shows, em Sergipe Cremilda (aquela do "prenda o Tadeu") está sempre atuando; na Bahia... Bem, da Bahia não precisa nem falar.
E no Rio Grande do Norte? Aqui, dói dizer, nossos ídolos são esquecidos. Isto, para usar um termo suave, pois na verdade, eles são tratados com uma indiferença cruel. Para os que ainda vivem, "geladeira"; para os que já morreram, esquecimento.
De quem será a culpa?
De uma coisa tenho certeza: do público é que não é.
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