Natal, RN
02 de Setembro de 2010
Todas as tardes eu gostava de me sentar na janela da nossa casa, na Rua 13 de Maio. Ligava o minúsculo rádio que minha avó, Dindinha, havia trazido para mim do Rio de Janeiro e, nos fins de tarde, ficava olhando o movimento da rua. Por ali passavam muitas pessoas diariamente: vendedores ambulantes, velhos conhecidos, garotas para quem eu lançava olhares insinuantes e figuras importantes da cidade, inclusive alguns dos craques do futebol novacruzense: Ivanildo, Tomazinho, Zé Abreu, Araruna (o “galã do futebol local), Cícero de Genuíno (que, embora cego de um olho era um excelente ponta-direita), Raia e Gato Cícero.
A cadeia municipal ficava localizada na rua em que eu morava e sempre que alguém era preso, os moradores se aglomeravam nas calçadas para assistir ao espetáculo grotesco de alguém ser conduzido à prisão. Um dia, testemunhei uma cena de violência que, embora muita gente não soubesse – inclusive eu - era uma pequena amostra do arbítrio que assolava o Brasil, naquela época, conseqüência do golpe de Estado de 1964.
Radinho de pilha colado ao ouvido, sentado na janela da casa onde morava, eu escutava Caetano cantar Soy loco por ti, América, quando avistei, ao longe, descendo a Rua 13 de Maio em direção à cadeia municipal, um homem algemado, sendo conduzido por dois soldados que o seguravam firmemente pelos braços. À frente de todos, um homem branco em trajes civis, de óculos escuros, gritava com o preso, gesticulando nervosamente. Deduzi logo que, para vir sendo conduzido daquela maneira, aquele preso só podia ser alguém muito perigoso. À medida que o grupo se aproximava, pude reconhecer o homem que estava sendo conduzido para a prisão. Fiquei surpreso, pois era uma pessoa conhecida na cidade, e pelo que eu conhecia dele, embora pudesse ter cometido algo que justificasse sua prisão, com certeza não necessitava de tamanho aparato policial. Aos poucos eu percebi que, além do homem à paisana e dos dois soldados que seguravam o preso pelos braços, logo atrás vinha uma patrulha policial. Mas o pior ainda estava por acontecer...
À certa altura, reconheci o homem à paisana. Tratava-se de um Capitão da Polícia, delegado da cidade. De repente, ele desferiu um soco no rosto do preso que, algemado e seguro pelos braços, sequer pôde livrar-se da agressão. Depois, o homem desferiu outro soco. E outro... E mais outro. Fiquei atônito. Eu detestava aquele delegado, pois alguns dias antes eu tinha ido até ele com alguns amigos, pedir permissão para fazermos uma serenata para as internas do colégio Nossa senhora do Carmo. Tudo terminaria antes da meia noite. Foi inútil. Alguns dias depois, ele proibiu os jovens de permanecerem na rua após as vinte e duas horas.
Ao contemplar aquele grotesco espetáculo, eu não podia imaginar que aquele homem à paisana agredindo um prisioneiro indefeso era um autêntico representante de um regime de exceção que, durante muitos anos, iria agredir, torturar e até mesmo matar muitas pessoas em nome da “segurança nacional”. Até hoje eu não sei o crime que aquele pobre homem havia cometido, para protagonizar aquele vergonhoso espetáculo. Só sei de uma coisa: depois daquele dia, não me lembro de tê-lo visto mais. Talvez tenha resolvido sumir, de tanta vergonha.
Em 1966 eu tentei, com dois amigos, Olival e José Hélio, formar um grupo vocal que batizei de Los Cardenales. Ensaiávamos sobre um lajedo que existia por trás do ginásio Nestor Marinho. Nossos instrumentos eram pedras pequenas com as quais batíamos uma nas outras, marcando o ritmo das músicas que cantávamos:
“Ah, deixe esta boneca, faça-me favor,
Deixa isso tudo, vem brincar de amor...”
Ou:
“Estou guardando o que há de bom, em mim,
Para lhe dar, quando você, chegar...”
O repertório era atualizado: só sucessos da Jovem Guarda.. Mas com o nome e com o instrumental que tinha, Los Cardenales nem chegou a estrear...
Tentei, também, criar um programa de auditório numa sede que ficava localizada no alto de São Sebastião. O apresentador: José Hélio. As atrações: eu, Joilton, Franklin Gadelha e Lula de João Tiba. Os músicos: Olival na bateria e Itamar Gadelha no acordeon. Eu e José Hélio conseguimos brindes no comércio, fizemos os ingressos de cartolina e nos preparamos para a grande estréia. Não entrou uma só pessoa. Como Los Cardenales, o programa Carrossel de Atrações acabou antes de estrear. Logo depois, tive outra idéia “brilhante”: formar um conjunto musical com alguns amigos. Como não tínhamos dinheiro, decidimos fazer uma campanha para mandar fabricar os instrumentos.
Eu, Levi e mais alguns amigos alugamos uma carroça e saímos de porta em porta, pedindo donativos (dinheiro e, principalmente, garrafas vazias que seriam vendidas). Jamais esqueci o gesto de um comerciante chamado Rivaldo, que morava na Rua José da Penha. Enquanto a maioria das pessoas nos dava moedas, ele doou uma nota com a efígie de Tiradentes (a então novíssima nota de cinco mil cruzeiros) e sempre sorrindo, nos incentivou, mandou que seguíssemos em frente:
- Vocês vão conseguir. Não desistam.
Com aquela nota mandamos fabricar uma guitarra de madeira e com o dinheiro da venda das garrafas, compramos madeira para construir um contra-baixo. Mas não conseguimos fabricar os outros instrumentos e o surgimento do conjunto, batizado por mim como The New Crossian Beatles (que, na minha cabeça, significava “Os Beatles Novacruzenses”, em Inglês) não passou de um sonho.
Durante o tempo que vivi em Nova Cruz, no período das férias eu me juntava à noite na praça Dix-sept Rosado com a turma para falar de futebol, mulheres, as meninas do sapo, os sarros nos bailes... De vez em quando, Edgar Viana, um dos intelectuais da cidade, ficava lá no meio da gente. Quando isto acontecia, o papo ganhava outro nível: girava em torno de Cinema, Teatro, História, Atualidades.
Quando havia um circo na cidade, diminuía a freqüência do Colégio Nestor Marinho durante a semana e do Cine paroquial aos sábados e domingos: quase todo mundo ia para o circo. Por Nova-Cruz, passaram circos pequenos, médios e grandes. Os palhaços criavam bordões que se incorporavam ao linguajar dos moradores, as dançarinas alimentavam as fantasias dos rapazes e os cantores faziam as meninas suspirar. Bié Montez, imitador exímio de Waldick Soriano foi uma das figuras mais marcantes daquela época. Acompanhando-se sozinho ao violão, pisando o picadeiro de várias companhias circenses, ele levava algumas mulheres às lágrimas, dando a impressão que chorava quando cantava:
“Minha querida, saudações
Escrevo esta carta, não repare os senões
Para dizer o que sinto dentro de mim
Amargurado na saudade
Das horas vividas com felicidade...”
Muitos dramas circenses faziam as pessoas chorar: Paixão de Cristo, Milagres de Santo Antônio, A Louca do Jardim, Coração Materno, entre outros. Eu tinha certa inveja dos meninos que acompanhavam o palhaço de pernas de pau pelas ruas da cidade anunciando o espetáculo da noite:
“O raio do sol suspende a lua
Olha o Palhaço no meio da rua...
Hoje tem espetáculo?
Tem sim senhor
Às oito horas da noite?
Tem sim, senhor
E arrocha negrada!
Para não perder o espetáculo da noite, nem precisava ter relógio. Naquela época, havia nos circos um grande trilho no qual um empregado batia com uma barra de ferro dez vezes, a cada quinze minutos, a partir das sete e meia da noite. O som, que podia ser escutado em quase toda a cidade eram as “chamadas” para o início do espetáculo: às sete e meia, a primeira chamada; à sete e quarenta e cinco, a segunda chamada; quando soava a terceira chamada, faltando cinco minutos para as oito horas, geralmente o circo já estava lotado. Às oito em ponto as luzes se apagavam - ficavam acesas apenas as do picadeiro e o locutor anunciava:
- Distinto público, meu cordial boooaa noooite! Temos o prazer de cumprimentar especialmente as autoridades civis, militares e eclesiásticas presentes. E agora, vamos dar início ao grande Espetáculo desta noite!
E aí, começava o Espetáculo. Tão ingênuo, tão engraçado, tão simples... E que eu jamais iria imaginar que ficaria para sempre na minha memória...
Quando comecei a cantar aos domingos Na Manhã de Sol Marca Olho, no Comercial Atlético Club, eu tinha apenas doze anos e não ganhava cachê. E como ganhava pouco no Regional do Tenente Freitas, resolvi vender balas para ganhar algum dinheiro. O meu tio me deu o capital necessário para eu iniciar o negócio, e minha mãe me ajudou a comprar um tabuleiro que pintei de azul, em cuja frente mandei pintar em letras brancas a inscrição Fefé e Cia. Ltda. Comprei a mercadoria no armazém de José Leão, e com um completo sortimento de balas, doces, pastilhas, chicletes e cigarros, fui à luta. Mas por causa das minhas apresentações no CAC, eu tinha muitas fãs, e tinha medo de ser visto por elas conduzindo um tabuleiro pelas ruas de Nova Cruz. Como elas reagiriam se avistassem “o garoto da voz de ouro” gritando, quase aosberros pelas ruas da cidade conduzindo um tabuleiro: - Quem vai querer confeito, chicletes, drops, pelo menor preço da cidade? Ou então: - Homem, menino e mulher, venham comprar com o Fefé? Um belo dia, num fim de tarde de dezembro, período das festas natalinas, eu estava tranqüilamente vendendo minhas balinhas na praça Dix-Sept Rosado em frente à Prefeitura Municipal, quando aconteceu o pior. Havia chegado há pouco tempo na cidade um novo delegado. E eu me interessei por uma das suas filhas. Naquela tarde fatídica, meu tabuleiro estava sortido e as vendas estavam indo muito bem. Eu acabara de vender uma carteira de cigarros da marca Gaivota e me preparava para receber o dinheiro do freguês, quando ouvi meu amigo Levi Damasceno gritar: tabuleiro - Fernando, lá vem Léa! Ao virar-me e ver sair de dentro daquele velho jipe cinzento de quatro portas, que acabara de estacionar próximo ao bar do Valdemar, um verdadeiro batalhão infantil tendo à frente o delegado, eu, com medo de ser visto vendendo balas, não pensei duas vezes: sem esperar sequer pelo dinheiro da carteira de cigarros que havia vendido, girei nos calcanhares em fração de segundos e, numa arrancada tão veloz que faria inveja ao próprio Super-homem, disparei no caminho de casa. Mas o meu pesadelo estava só começando: ao atravessar a linha do trem, tropecei nos trilhos e caí. Fui para um lado e a minha firma (o tabuleiro) foi para o outro. Num abrir e fechar de olhos, inúmeras crianças que pareciam milhares, se atiraram freneticamente sobre aquele tapete multicolorido de guloseimas espalhadas pelo chão, qual maná caído do céu. Tentei levantar-me uma, duas vezes, mas foi em vão. Por fim, consegui, com muito sacrifício, desvencilhar-me daquele mar de mãos, pés e bocas ávidas e saí correndo pra casa, onde cheguei com a roupa em desalinho, o cabelo assanhado, o dedão do pé sangrando, segurando o que havia restado do meu tabuleiro, e com apenas um dos pés do par de tênis Sete Vidas (cuja propaganda em todo o Brasil era feito por Garrincha e suas sete filhas mulheres), que eu tinha comprado com tanto esforço com o meu próprio dinheiro e usava pela primeira vez naquela tarde. Estava encerrada a minha carreira de vendedor de balas
No caso de contratação de artistas locais para eventos públicos, o órgão contratante tem que seguir à risca os trâmites legais com relação à forma de pagamento. Se no caso da contratação de artistas famosos geralmente existe a participação de uma empresa que remunera ao artista para depois receber do poder público, e esta empresa ganha muito bem para isto - pois os cachês pagos a artistas de nome são altíssimos - , não existe o MÍNIMO interesse desta empresa em defender os interesses dos nossos artistas, exatamente porque estes ganham cachês ínfimos. Isto ocorre porque o mercado do entretenimento remunera os artistas de acordo com a ocupação que ocupa no "ranking" do sucesso, independente do talento destes.
A nossa sugestão à Frente Parlamentar Municipal De Esporte, Cultura e Lazer da Câmara Municipal Do Natal é a seguinte: Já que não se pode interferir em um mecanismo determinado por fatores subjetivos – o valor de cada artista como produto – esta Comissão poderia estudar a viabilidade jurídica da criação de uma Lei que determinasse ao poder público que, sempre que promovesse eventos com artistas consagrados, também incluísse nestes eventos a contratação de artistas locais, utilizando a mesma forma de pagamento para os nossos artistas e os artistas de renome nacional.
Neste caso, embora os cachês sejam discrepantes – sempre serão -, a empresa responsável pela contratação dos artistas, que ganham muito dinheiro ao representar artistas famosos, seriam obrigadas, como contrapartida, a assumir com os artistas locais o mesmo compromisso que assumem com os de renome nacional, ou seja: efetuar também a nossos artistas o pagamento antecipado, para recebimento posterior por parte do poder público, como determina a Legislação. Nenhuma empresa teria dificuldades em fazer isto: se dispõem de estrutura para pagar dezenas de milhares de reais antecipadamente aos “medalhões”, porque não poderiam fazer o mesmo com nossos artistas, que ganham infinitamente menos do que os que vêm de fora?
Acreditamos que uma lei neste sentido seria de fundamental importância para reparar esta grande injustiça com nossos artistas. E vamos mais além: temos a profunda convicção de que uma lei desta natureza um dia TERÁ QUE EXISTIR NÃO SÓ NO ÂMBITO MUNICIPAL, COMO TAMBÉM NO ÂMBITO ESTADUAL. Sabemos que muita coisa tem que ser feita não só na área da música, como também em outros segmentos da cultura, cujos profissionais, com certeza enfrentem o mesmo tipo de problema.
Aproveitamos a oportunidade para sugerir a artistas ligados a outros segmentos que também apresentem sugestões neste sentido pois, se houver uma legislação que possa estabelecer um critério de respeito pelos nossos artistas,estará sendo dado o primeiro passo para o fortalecimento da cultura, da arte e do talento potiguar.
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