Sérgio Vilar, do Diário de Natal
Há quem critique a autenticidade da tradição cultural das quadrilhas juninas. Aos brincantes, o fato pouco importa.
Acreditam no que fazem, olham de soslaio para as discussões e trabalham o ano inteiro com uma dedicação que beira a ideologia. Dispensam tempo, dinheiro e às vezes largam até relacionamentos para continuar na atividade, junto à "família junina". No Rio Grande do Norte, essa "família" tem diminuído a cada ano. A escassez das festas juninas nos bairros é apenas um retrato do problema.
Décadas atrás, não havia chuva que apagasse a quantidade de fogueiras espalhadas pela cidade. Bandeirinhas, balões, fogos, milho assado... Ou quem não lembra do Arraiá da Esmeralda ou Arraia da Veia Chica? Esse "chá de sumiço" também ocorre nos galpões onde quadrilhas estilizadas ou tradicionais ensaiam. Em 1988 o número de quadrilhas espelhadas pela cidade ultrapassava 400. Ano passado foram 64. E hoje se resumem a 57 grupos. Os dados são da Liga Independente de Quadrilhas Juninas do Rio Grande do Norte.
A causa apontada para a queda é a falta de apoio do poder público. "Quem mais incentivou foi a professora Wilma de Faria, no mandato de prefeita. Depois, só veio a cair", constata Humberto Floriano, presidente da Liga há 15 anos,. Das 120 quadrilhas juninas filiadas à Liga, 57 são de Natal e o resto, do interior. A maioria é de quadrilha tradicional. Apenas 45 são estilizadas. A diferença se dá pelos custos mais elevados.
"As estilizadas representam o avanço na cultura popular dos festejos juninos. As tradicionais guardam mais as velhas tradições. Cada uma exerce bem o seu papel", opina. Ambas receberam verbas governamentais este ano. A Fundação José Augusto abriu edital de R$ 500 mil, sendo R$ 250 mil para o interior e outra metade para Natal. A Funcarte disponibilizou R$ 154 mil em convênio com a Liga. "A prefeitura fez tudo certo. Minha preocupação é a falta de fiscalização na distribuição do dinheiro pela FJA".
Dessa quantia, a Liga abstrai 5% para manutenção da sede. É a únicaverba recebida durante o ano. "Não podemos cobrar mensalidade dos grupos filiados. Eles mesmos já tiram do próprio bolso para se sustentarem. É uma situação difícil a que vivemos", lamenta. Humberto defende há anos melhor atenção à categoria. "Vamos sediar a Copa durante o período junino. Seria importante Natal vender melhor sua cultura e apostar nas quadrilhas". E cita ainda o trabalho realizado no carnaval e nos cortejos do Natal em Natal. "Somos nós quem confeccionamos aqueles figurinos todos", se orgulha.
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