Publicação: 29/06/2010 17:50 Atualização:
Os Estados Unidos desarticularam uma rede de espionagem ligada a Moscou e detiveram dez de seus integrantes em uma operação que lembra os tempos da Guerra Fria e que, segundo a Procuradoria em Nova York, é "apenas a ponta do iceberg" de uma suposta conspiração russa.
Durante décadas, essas pessoas moraram nos subúrbios dos estados americanos de Nova York, Nova Jersey e Washington, levando suas vidas como qualquer cidadão americano, misturadas com o restante da população e com trabalhos que não chamavam atenção.
No entanto, segundo os documentos apresentados pela Procuradoria a um tribunal federal na cidade de Nova York, na verdade elas atuavam como espiões para a Rússia.
Elas supostamente trabalhavam em pares para a Rússia, algo que o Ministério de Exteriores do país negou hoje e qualificou de acusação "mal-intencionada".
Além disso, elas tinham identidades e passaportes falsos, se reuniam secretamente, escreviam cartas com tinta invisível, enviavam mensagens por rádio através de ondas curtas e tiveram filhos em comum para fazer sua situação nos EUA parecer mais realista.
Ao chegar nesta terça-feira à sede da Procuradoria em Manhattan, o procurador Michael Farbiarz disse que "esta é apenas a ponta do iceberg", em referência aos acusados e a uma investigação que os agentes do FBI seguiram durante pelo menos sete anos em Nova York, Nova Jersey, Massachusetts e norte da Virgínia.
O Ministério de Exteriores russo admitiu hoje que alguns dos supostos espiões detidos são cidadãos russos, mas negou que cometessem atos contra os interesses dos EUA.
"Sobre as acusações apresentadas nos EUA contra um grupo de pessoas suspeitas de espionar para a Rússia, informamos que se trata de cidadãos russos que em épocas diferentes foram para território americano", informou o porta-voz da Chancelaria russa, Andrei Nesterenko.
Moscou expressou ainda a esperança de que as autoridades americanas garantam aos detidos um "tratamento normal" nas penitenciárias e permitam que sejam visitados por representantes do consulado russo e seus advogados.
Em Washington, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, - que na semana passada se reuniu com Dmitri Medvedev, da Rússia, e juntos evidenciaram o bom estado de suas relações - se negou hoje a comentar sobre a suposta rede de espionagem.
A Procuradoria em Manhattan acusa os espiões de lavagem de dinheiro e de conspiração para atuar como agentes de um Governo estrangeiro sem informar o Departamento de Justiça americano, crimes pelos quais poderiam ser condenados a 20 e a cinco anos de prisão respectivamente.
No entanto, ainda não foram apresentadas acusações por espionagem ou por terem obtido material classificado dos EUA.
"As provas são simples e firmes", disse Farbiarz, durante a audiência em Manhattan, enquanto apresentou Anne Chapman, uma divorciada russa de 28 anos, empresária do setor imobiliário e uma das acusadas cuja foto aparece hoje nos tablóides nova-iorquinos, dizendo: "Esta é uma espiã russa".
Dos 11 detidos, o último deles, que supostamente tinha nacionalidade canadense e usava o nome de Christopher Metson, foi preso hoje no Aeroporto Larnaca, no Chipre, e seu nome faz parte da lista de acusados.
O FBI apresentou documentos sobre os encontros dos espiões, em que trocavam bolsas idênticas e materiais em lugares movimentados como o Central Park, a cafeteria Starbucks em Times Square ou a estação de Long Island.
Entre eles também está a jornalista peruana Vicky Peláez, colunista do jornal nova-iorquino em espanhol "El Diário/La Prensa", e seu marido, Julián Lázaro, de origem uruguaia, detidos no domingo em sua casa em Yonkers, ao norte de Nova York.
Fontes da Procuradoria disseram à Efe que ambos já compareceram em um tribunal federal em Manhattan e foram detidos por terem realizados durante um "longo período de tempo" missões encobertas nos EUA atuando "de maneira ilegal" como agentes para a Rússia.
Vicky e Lázaro, segundo os documentos judiciais, viajaram durante anos para um país sul-americano não identificado, no qual "passavam mensagens secretas" a oficiais do Governo da Rússia e recebiam dinheiro por seus serviços.
Os documentos apresentados hoje em Nova York detalham algumas das conversas do casal interceptadas pelas autoridades americanas e relativas a suas viagens ao mesmo país, onde "um representante do Governo da Rússia (lhes) entregava pacotes com dinheiro", em um valor que chegou a US$ 80 mil em uma ocasião, com quem Lázaro teria sido fotografado.
Todos os acusados, segundo a Procuradoria, trabalhavam para o serviço de inteligência russo, "eram agentes que ocultaram todas suas conexões com a Rússia, mesmo trabalhando sob sua direção e controle".
Entre as provas, foi apresentada uma mensagem procedente de Moscou e que o FBI conseguiu decifrar, além de conversas em datas e lugares nos quais se encontravam com seus parceiros, incluindo o consulado russo em Nova York.
"Foram enviados aos EUA para realizar um serviço em longo prazo. Sua educação, contas bancárias, carro e casa servem para um único objetivo: cumprir sua missão, buscar e desenvolver laços com os círculos políticos americanos e enviar os relatórios de inteligência" para a Rússia, afirmam os documentos.
Da Agência EFE.
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