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Publicação: 01/05/2009 08:43 Atualização:
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Em 1958, Valdomiro Pereira tinha 18 anos. Naquele ano, ele participou da construção de um açude na cidade de Acari. Valdomiro era mais um dentre as centenas de trabalhadores envolvidos naquela obra, capaz de armazenar 40 milhões de metros cúbicos de água, em 780 hectares. Um ano depois, o Açude Público Marechal Dutra, popularmente conhecido como Gargalheiras, era inaugurado. Cinquenta anos antes, a Inspetoria de Obras contra a Seca (IOCS) elaborava a primeira planta topográfica para a construção da parede de 32,5 metros de altura e 250 de comprimento do açude que Valdomiro ajudou a concluir. O detalhe é que o pedreiro não viu sua obra ser inaugurada. Ele estava morando em Minas Gerais e perdeu o evento. Hoje, cinquenta anos depois, Valdomiro voltou mais uma vez ao Gargalheiras para comemorar o seu cinquentenário. Encontrou o velho conhecido ‘‘sangrando’’, com uma lâmina d’água superior à um metro de altura, e o velho rio Acauã percorrendo novamente seu caminho.
‘‘Isso é a maior beleza que temos na região. O Seridó pode se orgulhar de ter uma obra dessas aqui nessa cidade. O Gargalheiras é nosso ponto turístico, nossa história, nosso coração’’, declara Valdomiro, do alto de seus 70 anos, ‘‘um filho de Acari’’, como gosta de dizer. ‘‘Trabalhei aqui com a britadeira, com o cimento. Fui morar em Minas e perdi a inauguração, mas quando voltei e encontrei o açude cheio, foi uma das maiores emoções da minha vida. Saber que fiz parte disso aqui muito me orgulha’’.
A emoção de Valdomiro foi compartilhada pelo agricultor Sebastião Resende da Fonseca, 74 anos. Ele saiu de Jardim de Seridó com o único intuito de ver a sangria do Gargalheiras. ‘‘Eu comecei a trabalhar na roça aos 10 anos. Há 50 anos a gente não via uma coisa dessas por aqui, essa quantidade de água toda. Água era um coisa muito difícil, a gente andava muito com uma lata na cabeça para conseguir água. O poder de Deus é muito grande. E ainda tem gente que diz que ele não existe. Como não, diante de uma beleza dessas? Hoje o Seridó está completo de barragens, de açudes, todos sangrando. É uma benção’’, relatou emocionado diante do que chamou ‘‘um espetáculo da vida’’.
Quando o Gargalheiras estava sendo construído, Angelina Ana da Conceição tinha 8 anos de idade. Herculano, seu pai, trabalhava na obra. ‘‘Naquela época eu não tinha ideia do que era aquilo que estavam construindo. Morávamos num sítio, dentro da serra. Meu pai era peão e todo dia eu levava comida para ele. Só comecei a estudar aos 12 anos, pois era agricultora naquelas terras secas. Na primeira sangria do açude, em 1960, estava em cima da serra. Achei aquilo incrível’’.
Hoje aos 59 anos, Angelina continua ‘‘namorando’’ o Gargalheiras. Há 14 anos ela abriu um bistrô na beira do açude e acompanha as idas e vindas do açude. ‘‘Quando chegamos aqui, estava tudo em ruínas. O batalhão do Exército foi embora e o açude ficou abandonado. Só restou a vila dos pescadores e um hotel. Aos poucos fomos reerguendo o local e hoje o Gargalheiras é o coração de Acari’’.
Angelina relata que as sangrias são a época de maior movimento no açude. É fácil ver uma verdadeira multidão de pessoa em peregrinação rumo à parede do açude para ver as águas sangrando. Também é fácil ver a satisfação estampada no rosto, acompanhada de um sorriso. Angelina entende esse sentimento. No ano passado, depois de sete anos sem encher, o Gargalheiras voltou a sangrar. A empresária relata que acordou de madrugada com o som do açude e saiu caminhando por sua orla. Fez um poema. ‘‘Escrevi o que senti naquele momento, pois antes ele havia descido 14 metros - mas nunca secou’’.
Solenidade é marcada pela emoção
Discursos emocionados, presença maciça da classe política norte-rio-grandense e da população marcaram a sessão solene pela comemoração dos 50 anos do Açude Marechal Dutra e 100 anos do Dnocs, no final da tarde de ontem, no Municipal Clube de Acari. A solenidade teve também a participação de dezenas de funcionários e ex-funcionários do Dnocs e de uma comitiva vinda do Ceará.
O presidente da Assembléia Legislativa, Robinson Faria, comentou sobre a autorização do governo do estado, no último dia 15, do estudo da profundidade e do volume do açude, conhecido como batimetria. Mas fez um alerta e pediu a atenção para a questão da poluição gerada pelos afluentes do açude Marechal Dutra.
O problema da poluição no açude motivou os presidentes das Câmaras de Acari e Currais Novos, vereadores Ismael Medeiros e João Neto, a entregarem aos deputados um documento pedindo sua intervenção para auxiliá-los nessa questão, já denunciada através de estudos da UFRN publicados na revista Ciência Hoje.
A solenidade contou com a presença da governadora Wilma de Faria, do vice Iberê Ferreira de Souza, dos senadores Garibaldi Alves e Rosalba Ciarlini, deputados federais Fátima Bezerra e Henrique Eduardo Alves, e outros deputados estaduais.
O diretor geral do Dnocs, Elias Fernandes, falou sobre os projetos em curso e lembrou que o papel da instituição foi fundamental na fixação do homem no seu território: ‘‘Antes o nordestino, por não ter condições de sobrevivência, migrava para o centro sul do país em busca de oportunidade, isso quando não morria de fome ou de sede’’, afirmou.
Fernandes disse que a instituição está se capacitando através de concursos públicos e da capacitação administrativa para ser o gestor do São Francisco. ‘‘Vou levar ao ministro Geddel Vieira e aos colegas, a satisfação por as homenagens deste centenário terem se iniciado na minha terra natal’’, finalizou.
Um momento inusitado na solenidade foi a presença da estudante Luiza Gabriela, 15 anos, que declamou uma poesia sobre o açude e foi bastante aplaudida. O prefeito de Acari, Antônio Carlos Fernandes de Medeiros, mostrou-se emocionado com a felicidade de participar da sessão.
Obra fixa seridoense em sua terra
A origem do Gargalheiras coincide com o nascimento da Inspetoria de Obras Contra a Seca (IOCS), em 1909, órgão que daria lugar ao Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS). Ambos, criador e criatura, tem origens centenárias.
De acordo com o diretor do DNOCS, Elias Fernandes, a maior e mais importante obra construída pelo órgão foi a possibilidade de fixar o homem nordestino em sua região, refreando o êxodo rural devido às secas históricas. Em seus 100 anos de existência o DNOCS construiu 335 açudes de médio e grande porte. Elias Fernandes ressalta que essas construções deram origem à diversas cidades. ‘‘A história do Gargalheiras se confunde com a de Acari. Outras cidades como Cruzeta, Riacho da Cruz e São Miguel também surgiram após construções do DNOCS’’.
O senador Garibaldi Filho ressaltou o pioneirismo do DNOCS. Ele afirma que ‘‘o primeiro planejamento de reservação e aproveitamento de águas foi feito pelo DNOCS. Ali foi criada a política de construções de grandes barragens no Nordeste, pois sofremos com grande perdas de água pela evaporação e os açudes menores não conseguem subsistir. Hoje temos políticas de recursos hídricos a nível nacional e estadual em que se impõem a conservação e o melhor aproveitamento das águas no Nordeste. Os ensinamentos do DNOCS continuam hoje presentes’’.
Luiz Freitas
luizfreitas.rn@diariosassociados.com.br
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